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A anos luz

Livro 1 - A consumação

A anos luz

Livro 1 - A consumação

29.06.19

Capítulo 18


Carmen

Arthur

 

 

Não sei se consigo encontrar palavras para descrever os últimos três dias. A verdade é que sinto que fui atropelado por uma das nossas naves de guerra sem sequer ter percebido que ela vinha a caminho. A morte de Zira provocou um caos, não só aqui, no palácio, mas também em Pangeia e em Isla. Perdi a conta à quantidade de horas que passei em reuniões e conselhos de ministros, vi o meu pai furioso, descontrolado e impotente, participei em videoconferências com o governo voryano e, no meio de tudo isto, tenho tentado passar com Lia todo o tempo possível.

 

O dia que se seguiu à morte de Zira foi de choque e comoção. Em frente a todos os outros, Lia manteve uma expressão aparentemente serena mas, quando finalmente ficou a sós comigo e com Elena, deixou que as muralhas ruíssem e uma enxurrada de lágrimas cor de prata correu durante horas. 

 

Se é verdade que é Lia quem está no centro das minhas preocupações, quando já de madrugada, depois de uma reunião demasiado longa e inconclusiva com o ramo de alto desempenho da nossa polícia, entrei no quarto dela e a vi abraçada a Elena, percebi que é altura de me preocupar também com a minha irmãzinha. É verdade que a nossa relação é turbulenta mas... Haverá irmãos com relações plenamente pacíficas? Elena é uma menina alegre, extrovertida e, às vezes, demasiado arisca. Onde está Elena está a alegria. E se há alguém que não merecia o destino que lhe foi imposto é ela. Percebi que, aquando da minha chegada, ambas tentaram limpar as lágrimas mas, curiosamente, nenhuma teve particular sucesso na missão. Lia e Elena são duas princesas inocentes, presas a escolhas que não são delas, numa merda de posição de mártir para assegurar uma paz que alguns idiotas continuam a querer recusar. Lia perdeu Zira, Elena tem medo de sofrer retaliações quando for a vez dela. E eu, se pudesse, dava a vida para garantir a segurança das duas.

 

 

O autor do homicídio de Zira continua a ser uma incógnita. O meu pai entrou numa espiral de culpa por ter desvalorizado os pequenos focos rebeldes que foram sendo identificados. O departamento mais exclusivo da nossa polícia garante ter debaixo de vigilância todos os participantes em protestos pró-colonização de Vory e não há registos de que qualquer um deles se tenha sequer aproximado do palácio. A grande questão é, aliás, como é que alguém conseguiu penetrar na segurança do edifício teoricamente mais seguro de Pangeia e chegar à ala dos quartos sem levantar suspeitas? As duas teorias mais prováveis são que, ou o assassino tem um cúmplice no palácio que o ajudou a aceder ao interior, ou é ele mesmo uma figura habitual daqui. Obviamente que nenhuma das opções nos deixa confortáveis e o ambiente, carregado de suspeição, está mais tenso do que alguma vez foi. 

 

Todos os convidados do baile de apresentação de Lia foram identificados e interrogados e o mesmo aconteceu com todo o staff do palácio. Não há, no entanto, qualquer suspeito oficial. Os dois militares que guardam a entrada para a zona privada do palácio garantem que ninguém suspeito passou por eles e, neste momento, aguardamos que o Supremo Conselho de Ética de Pangeia conceda a autorização para que ambos sejam injectados com o líquido a que chamamos "soro da verdade" e que impede que a pessoa que recebeu a injecção endovenosa consiga formular mentiras no período entre os quinze e os quarenta minutos pós administração. É uma pena que o composto mais abundante neste soro tenha um custo de tal forma elevado que as suas produção e manutenção sejam racionadas ao cêntimo e ao mililitro. 

 

Fodidamente tenho a sensação que, neste exacto momento, aterrámos num beco e não conseguimos prosseguir caminho. Não há suspeitos reais e o motivo parece-nos evidente mas, em último caso, pode até ser questionável. Aquilo com que todos os peritos parecem concordar é que o objectivo do criminoso não era Zira mas sim Lia. E eu fico com vontade de sair por aí a arrancar cabeças só de pensar que Lia está viva apenas por mero acaso. Se Lia não tivesse ficado a dormir comigo, ou se tivesse saído um pouco mais cedo, talvez neste momento já não estivesse aqui. Ontem já foram instalados em todos os quartos do palácio sistemas de leitura biométrica da íris que, antes desta confusão, eram um exclusivo do quartos dos meus pais, do meu e do de Elena. Curiosamente poucas vezes activo o sistema mas, depois do baile, na companhia de Lia e com uma tesão monstra, achei melhor assegurar-me que a minha mãe ou a minha irmã não conseguiriam entrar pelo meu quarto adentro, prontas para me darem um raspanete, e me encontrassem enterrado em Lia. Abençoada seja a hora em que tomei essa decisão ainda que, honestamente, não acredite que alguém tivesse arriscado fazer algo contra ela no meu quarto.

 

 

A cerimónia fúnebre de Zira foi simples e bela e, depois de terminada, o corpo, sem máscara, foi colocado numa nave programada para aterrar em Isla. Lia vestiu a Zira uma túnica voryana simples, totalmente preta, e penteou-lhe o longo cabelo branco com tranças complexas às quais prendeu delicadas fitas vermelhas de cetim o que, percebi, deve ser considerado uma honra. Na despedida de Zira, Lia voltou aos seus trajes voryanos e usou uma túnica longa, de mangas compridas e capuz, totalmente branca e sem qualquer adorno. No momento em que a nave descolou do pátio do palácio onde apenas nos encontrávamos os dois e a minha família, Lia agarrou a minha mão com força e, entre soluços que escaparam à contenção, disse as palavras que mais me doeu ouvir até hoje: "fiquei sozinha".

 

 

Quando tudo parecia terminado subi com Lia para o quarto e tentei que descansasse um pouco. Prometi-lhe que jamais estaria sozinha, que me tinha a mim e que, em breve, teria os nossos filhos. Disse-lhe que a minha família era dela e expliquei-lhe que, apesar de a conhecerem há tão pouco tempo, já a amavam profundamente. Mas nada pareceu consolar Lia. Acabei por pedir ao meu pai que voltasse ao contacto com o governo de Vory e que permitissem que a princesa contactasse a família. Felizmente o pedido foi aceite e Lia pôde, finalmente, falar com os pais e o irmão. Desconheço o teor da conversa que tiveram mas, depois de ouvir as palavras da família, percebi que, embora a tristeza permanecesse, começava a aparecer alguma aceitação em relação ao ocorrido.

 

Pedi também ao conselho de ministros que permitisse adiar a data do casamento por duas semanas mas apenas o pai de Genna votou favoravelmente à minha pretensão o que, aliás, me fez desconfiar que o meu caso com a filha nunca foi um segredo para ele. Segundo todos os outros ministros e, mais importante ainda, segundo o meu próprio pai, quanto mais rapidamente o casamento acontecesse mais seguro seria para todos. E nem vou falar no embaraço que senti quando ouvi homens e mulheres que me conhecem desde pequeno a aconselharem-me a "fazer o que fosse necessário e quantas vezes fosse necessário" para engravidar Lia depressa.

Com o pedido de duas semanas negado, foram-nos concedidos três dias  de adiamento, período mínimo para respeitar o luto de Lia. E esses três dias esgotam-se hoje, dia em que o nosso casamento vai mesmo acontecer.

 

 

 

Olho-me ao espelho pela milésima vez. Por questões protocolares sou obrigado a casar envergando a farda de gala das forças especiais terrestres que consiste numa espécie de fraque cinzento escuro, com colete verde e camisa branca simples, sem gravata, cruzado no peito por uma faixa verde e prateada onde, em pequenas letras pretas, é possível ler a frase "a base das acções reside na lembrança". Calcei sapatos pretos e penteei o meu cabelo com particular cuidado. Se há umas semanas me dissessem que estaria nervoso mas animado com a perspectiva desta união, eu teria rido que nem um louco. Mas hoje, estando aqui, e apesar dos últimos e terríveis acontecimentos, tenho a sensação que não há outro lugar onde preferisse estar e que Lia é a escolha certa para mim.

 

Quando ouço bater à porta do quarto, abro-a esperando encontrar a minha mãe mas, puta que pariu, se quem encontro não é Genna. 

 

- O que é que estás a fazer aqui? - pergunto carrancudo.

- Uiiii Arthur, tanto mau humor. Não vais deixar-me entrar?

- Curiosamente tinha ficado com a sensação de que tinha sido bastante claro quando te disse que não eras bem-vinda a esta zona do palácio... Por acaso expliquei-me mal? - sei que estou a ser rude mas tudo aquilo de que eu e Lia não precisamos agora é de uma cena provocada por Genna.

- Ok, ok... - e Genna levanta os braços em sinal de rendição -, de qualquer das formas vim só lembrar-te daquilo que estás a perder e dizer-te que continuo à espera de ouvir o barulho da tua mota a estacionar em frente à minha casa.

 

Lanço um segundo olhar a Genna. É verdade que ela é bonita, quente. O vestido vermelho longo, de decote em "V", realça as generosas curvas que conheço como a palma da minha mão. Mas a verdade é que a visão de Genna não provoca nenhuma reacção em mim. De uma forma quase inacreditável a pele que procuro agora é mais clara, os traços mais delicados e até o cheiro do perfume de Genna me parece errado por não me lembrar das laranjeiras em flor.

 

- Vais sozinha ou preciso chamar a segurança? - é melhor que ela vá antes que a minha mãe apareça. Há coisas que as nossas mães não precisam realmente de saber.

- Sozinha, obrigada. Conheço bem este caminho.

E, num golpe quase teatral, Genna roda sobre o próprio corpo e segue pelo corredor enquanto abana excessivamente as ancas.

 

Poucos minutos depois a minha mãe chega e coloca-me um ramo de flor de laranjeira no bolso o que, creio, deve romper o protocolo. Mas ela parece contente e eu também fico. A minha mãe é uma mulher linda e hoje, num vestido azul profundo e usando uma magnífica tiara, parece exactamente a rainha que é. 

 

- Vamos meu querido, não queremos correr o risco de Lia chegar primeiro ao altar - diz a minha mãe com um sorriso nostálgico.

- Mãe, é para isso que existem sistemas de comunicação. Hoje em dia essas coisas são facílimas de evitar.

- Não quero saber. Mexe-te Arthur! Estamos em cima da hora!

- Sim, meu capitão - digo com um sorriso enquanto finjo bater uma continência.

- Tontinho. Meu querido menino tontinho.

E quando vejo os olhos da minha mãe encherem-se de lágrimas, sei que é hora de seguir caminho.

 

 

Entramos na Igreja ao som de uma música tão antiga que já ninguém sabe ao certo de que período da Primeira Era é proveniente. Segundo todos os registos que se salvaram, esta música, chamada Ode an die Freude ("hino à alegria" na língua comum actual), servia como hino de um conjunto de países que se juntaram alguns anos antes da eclosão da Guerra das Eras e, por tudo o que representa, foi escolhida como tema oficial de Pangeia. Enquanto caminho pela nave central da Igreja, de braço dado com a minha mãe, observo alguns rostos que me sorriem. Mas só paro quando vejo Cesar e, dando mais um pontapé no protocolo, abraço-o aliviado.

- Desculpa irmão - é tudo o que lhe sussurro ao ouvido antes de ser novamente puxado pela minha mãe que, percebo, ficou feliz com o que acabou de ver.

No altar, à minha espera, o meu pai, vestido como eu mas com a coroa de monarca colocada, e Elena, linda num vestido da cor dos olhos de Lia, sorriem para mim. E menos de cinco minutos depois ouço soar os acordes de uma melodia lenta e delicada e sei que foi Lia quem a escolheu.

 

Quando o meu pai acena discretamente sei que é o momento para me virar e ver a minha noiva. No momento em que o faço sinto um aperto no peito: Lia, que não usa véu, abranda ligeiramente e, com um sorriso, retira a máscara prateada do rosto deixando-a cair no chão. Ouço o coro de interjeições de surpresa que enche a Igreja e, quando os meus olhos se prendem nos olhos violeta de Lia, percebo que, sem a máscara, ela não é nada parecida com aquilo que imaginei.

 

 

FIM DA PRIMEIRA PARTE.